terça-feira, 22 de novembro de 2016

A ÁGUA DE BODOCONGÓ E DE CAMPINA

Por Júlio Cesar*
Quanto mais próximo do colapso no abastecimento da água, maior ficam os dedos para apontar culpados.
Mas, de quem realmente é a culpa, já pararam para raciocinar? Historicamente Campina Grande sempre sofreu com crise hídrica.
Entre 1824 a 1828 houve uma tão intensa que o Imperador Pedro I autorizou a construção do Açude Velho (inaugurado em 1830) a partir do represamento do riacho das piabas (atual avenida canal).
Após a conclusão dele, foi autorizada a construção de outro açude de menor capacidade, mas, com a função de dar suporte ao Açude Velho.
Os dois mananciais deram conta da situação até 1880, quando novamente a situação voltou a se complicar.
Porém, conhecedores da região que habitavam, os mais ricos construíam poços e a classe média investia em cisternas (veja que as casas mais antigas da cidade ou tem um poço, ou uma velha cisterna no quintal).
Mesmo assim, o crescimento urbano forçou a construção em 1917 do açude do Bodocongó, que pelo alto teor de salinidade somente servia aos animais, embora, a população mais carente usasse os seus serviços.
Chegamos em 1939 e com ele o abastecimento via adutora de Vaca Brava (um açude distante 40 km da cidade), porém, este manancial não tinha suporte de vasão, pois dependia 90% da captação de águas de chuva.
Não tardou para este sistema também entrar em colapso, isto já em 1950, Campina Grande novamente enfrentava problemas com a estiagem.
Veio então em 1958 a solução do Açude Epitácio Pessoa (Boqueirão).
Planejado para “1 bilhão de metros cúbicos”, mas, acabou por questões politiqueiras, reduzido para 536 milhões.
Porém, com a justificativa de no prazo de 50 anos, os governos construírem outros quatro açudes de suporte, pois, este era o prazo máximo que Boqueirão teria condições de abastecer Campina Grande (Palavras do próprio Juscelino Kubitschek).
Foi então que, entrou governo, saiu governo e somente Acauã (dentro do que fora planejado) saiu do papel.
Enquanto isto, Campina Grande cresceu, inutilizou o Riacho das Piabas, contaminou o Açude Velho, aterrou o Açude Novo, enterrou seus poços e destruiu seus pequenos riachos, demoliu suas cisternas, abandonou Bodocongó e depredou como pode o Açude de Boqueirão.
Destruíram sua mata ciliar, ampliaram seu abastecimento para outras cidades dentro dos interesses políticos, mesmo sabendo que sua função não era esta.
Desperdiçaram água nas suas festividades, promovendo o que podia e não podia com a água.
Atrocidades que o próprio açude alertou em 2001, quando encaramos também um racionamento severo.
Em 2008, o prazo de Boqueirão encerrou e o que fizemos?
Agora voltamos aos mesmos problemas que enfrentamos por varias vezes e incrivelmente, mesmo tendo passado por eles, não conseguimos aprender nada.
E então, você já escolheu quem é o culpado disto tudo?
*Júlio Cesar é Designer Gráfico na empresa UEPB - Universidade Estadual da Paraíba

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